quarta-feira, 27 de abril de 2011

Relato de experiência da ESF\PSF como estruturante do SUS

                                                           “Não precisamos saber apenas que doença a pessoa tem,
                                                 mas que pessoa tem essa doença”. (Oliver Sacks)

Como definir a Medicina de Família e Comunidade?
Considerando a organização ainda hegemônica, tanto dos sistemas de saúde quanto da superespecialização na área médica – ambas centradas na doença e com base hospitalocêntrica - essa tarefa não é fácil. Algumas explicações corriqueiras centradas no senso comum são: “o médico de família e comunidade é aquele clínico geral antigo que ia na casa das pessoas” ou “o médico de família e comunidade é aquele que não se especializou em nada” ou ainda “é uma nova especialidade no Brasil”. Essas explicações, no entanto, são cercadas de ambigüidades e incorreções que temos procurado retificar.
O século passado foi marcado pelo avanço da ciência e crescimento de áreas subespecializadas e de especialistas focais no campo da prática médica. Porém, as análises sobre a crise da medicina e dos sistemas de saúde evidenciam que este crescimento exponencial da superespecialização focal, não trouxe os benefícios esperados, apontando para a necessidade de redirecionar este modelo. A histórica Conferência de Alma Ata realizada pela OMS em 1978 , simboliza o início de tal processo. A conferência proclamou a Atenção Primária à Saúde – APS como estratégica para se atingir a eqüidade e a universalidade no âmbito dos sistemas de saúde. A APS e sua conceituação, ainda que suscitem discussão, trazem consigo quatro grandes princípios: primeiro contato: longitudinalidade, integralidade e coordenação.
A medicina de família e comunidade – MFC – é uma especialidade médica com foco privilegiado na APS e, por isso, é considerada especialidade estratégica na conformação dos sistemas de saúde. Cabe à MFC, partindo de um primeiro contato, cuidar de forma longitudinal, integral e coordenada, da saúde de uma pessoa, considerando seu contexto 
familiar e comunitário. Portanto, a medicina de família e comunidade é um componente primordial da atenção primária à saúde
O médico de família e comunidade encaminha o paciente quando necessário aos centros de referência do sistema cabendo a ele, no entanto, a coordenação da atenção prestada pelos outros níveis. Diversos estudos asseguram que o manejo adequado de 50 diagnósticos resolve a maioria dos problemas de saúde apresentados pela população de uma determinada região. Embora freqüentes esses diagnósticos nem sempre são de fácil manejo e exigem muitas vezes alto grau de complexidade para serem solucionados, ainda que com baixa densidade tecnológica. Mas, sem os outros níveis do sistema funcionando de forma adequada, a medicina de família e comunidade não se sustenta e vice-versa. O canadense Mc. Whinney, considerado um dos maiores estudiosos da medicina de família definiu quatro competências próprias dessa especialidade: 1) solução de problemas não diferenciados; 2) competências preventivas; 3) competências terapêuticas (de problemas freqüentes de saúde); 4) competência de gestão de recursos.
Países como o Brasil, que não têm ainda uma atenção primária bem organizada, acabam desperdiçando preciosos recursos o que inevitavelmente leva à iniqüidade e à falência do sistema. Por isto muitos países desenvolvidos vêm investindo cada vez mais na Atenção Primária à Saúde. Países como Portugal, Canadá, Inglaterra, Cuba e Holanda consideram e adotam o especialista em medicina de família e comunidade (com diferentes denominações) como o profissional de primeiro contato, com excelentes resultados. Na Inglaterra, 51% de todos os médicos do país são Clínicos Gerais (“General Practitioners”), no Canadá, representam 55%, em Cuba, cerca de 65% e na Holanda eles já somam 33%. No Brasil, apesar de existir desde 1976 e ter sido uma das primeiras especialidades oficializadas pela Comissão Nacional de Residência Médica já em 1981 e pelo Conselho Federal de Medicina em 1986 (com o nome de Medicina Geral Comunitária, mudando para o atual em 2001), ela ficou muito tempo em posição marginal, só ganhando maior visibilidade após a expansão do Programa Saúde da Família.
A Medicina de Família e Comunidade também tem contribuído para a reestruturação científica da própria medicina adquirindo papel estratégico na constituição dos novos paradigmas na área da saúde, e, conseqüentemente, nos campos da formação de recursos humanos e da pesquisa. Isto porque, seus princípios e práticas são centrados na pessoa (e não na doença), na relação médico-paciente, na interlocução com o indivíduo, sua família e a comunidade em que está inserido, na prática orientada pelo entendimento de que o processo saúde-adoecimento é um fenômeno complexo, relacionado à interação de fatores de ordem biológica, psicológica e sócio-ambiental.
A medicina de família e comunidade, portanto não é uma novidade no Brasil ou no mundo. Também não significa o simples retorno do “médico de família” antigo, desprovido de uma tecnologia específica ou mesmo dos avanços modernos da ciência.
Construir novos paradigmas como: interdisciplinaridade, transdisciplnaridade e multiprossionalidade são conceitos que da prática um trabalho em equipe, ou seja, as necessidades que os profissionais da Estratégia em Saúde da Família trabalhem juntos para construir suas ações de atenção e cuidados, na prática sofreram dificuldades, entendo que vários fatores: Falta de recursos financeiros para a funcionalidade da equipe com qualidade, falta compromisso em muitos gestores com o objetivo da ESF, o perfil dos profissionais, que por serem formados com outra concepção de saúde não elaboram e não agem em prol da ESF, assim como o sistema capitalista que impõe seu modo de ser as pessoas.
Nesse sentido temos que tomar uma posição frente a esta situação, na qual encontramos em todo nosso Brasil, como desconstruir tantos mitos e vícios dentro de uma sociedade que quem manda são os meios de comunicação capitalista, que na verdade são da elite brasileira submissa ao capital¿, cabe a nós Médicos e Médicas comprometidos com uma saúde pública de qualidade debater e juntos com a sociedade buscarmos ações concretas as mudanças.

Josiano Macêdo de Lima
Médico da Reforma Agrária Formado em Cuba
Especialista
em Médicina de Família e Comunidade

Membro da Coordenação Nacional da AMN-MF

Equipe 2 do Centro em Saúde da Família: Lêda Crato; Aracatiaçu-Sobral
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terça-feira, 19 de abril de 2011

AQUECIMENTO GLOBAL E MUDANÇAS CLIMÁTICAS: Ameaça as bases naturais da vida




Estamos num período em que estão ocorrendo mudanças climáticas alarmantes, constituindo-se numa ameaça cada vez mais grave às bases naturais da vida no planeta.
            Trata-se de um fenômeno que é objeto de discussões polêmicas. Ainda há quem nega que as mudanças observadas (e entre elas em primeiro lugar o aquecimento global) têm a ver com a industrialização e a forma como foi constituída a matriz energética global. A maior parte dos governos e empresas ainda não consideram a necessidade de uma mudança radical do modelo de desenvolvimento. As “soluções! Discutidas ainda são superficiais e tendem a transferir o ônus que elas acarretam para as populações pobres do mundo- repetindo o mesmo esquema conhecido durante a história do capitalismo e do colonialismo.
            Na verdade existem três conceitos importantes diferentes nessa área: Mudanças Globais, Mudanças Climáticas e Aquecimento Global. Sobre mudanças globais: o que está acontecendo com o nosso planeta é que o homem adquiriu tal predomínio, como espécie dominante, do nosso planeta, que vários dos processos naturais biogeoquímicos que governan a composição da atmosfera e o funcionamento dos ecossistemas, ao longo dos últimos dos 4,5 bilhões de anos de evolução do nosso planeta, estão sendo profundamente alterados pelo homem. Particularmente nos últimos 150 anos. Isto quer dizer que o homem tem uma grande parcela de responsabilidade, tendo em vista que o clima do planeta é dominado por processos naturais e por processos associados à ação humana, como exemplo: estão a alterações no brilho do sol, emissões de aerossóis vulcânicos e uma série de processos que alteram a biosfera do planeta. Hoje não há menor dúvida, dentro dos 95 por cento de confiabilidade, de que a causa do aquecimento global dos últimos 150 anos é a ação do homem.
            Diante desse quadro, portanto, coloca-se a pergunta do que é possível fazer para que os efeitos inevitáveis das mudanças climáticas não atinjam de forma existencial as populações mais vulneráveis e, além disso, o que é possível fazer para contribuir a partir do “sul” com uma mudança do atual “modelo” injusto e predator, atacando assim o problema pelas causas.
            Algumas das conseqüências mais imediatas das mudanças climáticas já são previsíveis ou até já podem ser observadas:
a)      Os padrões de neve e chuva estão mudando na América Latina, criando uma pressão adicional à já limitada disponibilidade de água potável no Peru, Bolívia, Colômbia, Chile, na parte ocidental da Argentina e Nordeste brasileiro. Mesmo m regiões com água abundante, há motivos de preocupação. Em grande parte da região amazônica, a situação de maior enchente no ano de 2005 foi a mais baixa dos últimos 60 anos.
b)      Aparecimento de secas severas, contribuindo com o aumento dos incêndios florestais e a falta de água disponível.. O surgimento de novos e a ampliação dos atuais desertos, atingindo diretamente as possibilidades de produção agrícola e a disponibilidade de alimentos abundantes e com preços acessíveis.
c)      O aquecimento de regiões altas dos Andes está acabando com as geleiras, afetando diretamente a agricultura e a disponibilidade de água nas cidades costeiras. Além disso, o transbordamento de lagos que recebem as águas do degelo ameaça de imediato a vida e a subsistência de populações mais abandonadas.
d)      Ocorrência de furacões, tufões e ciclones, com violência redobrada, como as inundações e tufões na Ásia do Sul e do Sudeste, inundações a uma escala sem precedentes na África Oriental e Ocidental e furacões sucessivos de escala cinco nas Caraíbas (Nesta região, só em 2005, foram 26 tormentas tropicais e 14 furacões provocando tragédias em Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México e Nicarágua). As pessoas mais pobres são as mais susceptíveis à destruição causada pelos furacões e inundações por várias razões. Os pobres vivem comumente em casas de baixa qualidade, mais expostas aos danos dos ventos, as chuvas fortes e às inundações. A baixa qualidade ou não existência de redes de esgotamento sanitário e a falta de água potável nos bairros pobres poderá criar uma maior exposição a doenças transmitidas pela água depois de uma inundação.
e)      O crescimento do nível dos oceanos devido ao derretimento das calotas polares, podendo ocorrer, futuramente, a submersão de muitas cidades litorâneas. O aumento do nível do mar poderá afetar as áreas costeiras, especialmente em regiões mais vulneráveis do Caribe, América Central, Venezuela, Brasil e Uruguai, causando tanto a perda de terrenos costeiros como atingindo a infraestrutura e a biodiversidade com a invasão da água salgada (também pelos rios) contaminando os solos.
f)        Desmatamento de florestas de países tropicais (que ao mesmo tempo em parte são causa e em parte efeito das mudanças climáticas), inclusive no Brasil. As florestas latinas americanas ocupam um quarto da região e correspondem a mais de um quarto das florestas do planeta. Supõe-se que o aumento da temperatura em 2ºC poderia ocasionar uma seca permanente na região e o desaparecimento em grande escala da floresta, produzindo uma alta liberação de carbono na sua deteriorização, acabando com grande parte das espécies de planta e animais.
g)      A morte de várias espécies animais e vegetais. Isto ameaça as bases de sistemas de produção agrícola que funcionam em consonância com o equilíbrio dos ecos sistemas e de forma especial a agro-ecológica, o extravismo e a pesca sustentável, atingindo assim populações ribeirinhas, indígenas, quilombolas... A diminuição da biodiversidade como, p.ex., a destruição de sistemas de corais que são verdadeiros berçários e fonte para a multiplicação da vida marítima, terá efeitos desastrosos para a pesca.
h)      Diminuição do nível do lençol freático.
i)        Alteração no nível de chuva em diversas regiões.
j)        Aumento geral da temperatura no planeta.
k)      Alterações significativas no fluxo de água em rios e área alagáveis.

Finalmente, pode-se seguramente prever que a segurança alimentar tende a diminuir na medida em que aumentarão as imponderabilidades climáticas (secas precipitações irregulares, erosão dos solos etc.). Neste contexto também aumentarão os preços dos alimentos ou no geral os produtos agrícolas, a agricultura familiar poderá perder sua viabilidade. Os povos indígenas poderão perder as condições de viver nas suas terras. Além desses exemplos é possível que, em geral, os índices de pobreza aumentem cada vez mais com todos os efeitos para à saúde, educação da população mais pobres etc.
No entanto, longe de querer desenhar um cenário apocalíptico, a intenção deste texto é servir subsídio para um debate na busca de propostas populares para resolução de tal situação, visando a construção de uma estratégia que atinja os problemas pelas causas, sabemos que para mexer com estes deve-se ir à raiz, portanto a classe poderoso do estado burguês mundial.
Entre as principais causas das alterações climáticas e do aquecimento global que podemos de imediato destacar estão:
a)      O modelo de industrialização dos últimos dois séculos baseado no uso de fontes de energia fósseis e em conseqüência a emissão de gases que causam o efeito estufa (dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, CFCs etc.) pela própria indústria.
b)      A agricultura baseada no uso intensivo de insumos químicos.
c)      A monocultura da produção agrícola que destrói a diversidade.
d)      A pecuária extensiva e crescente que exige destruição de florestas e cujos animais produzem gases.
e)      O transporte terrestre, aéreo e marítimo e o modelo de transporte urbano atual que provoca e privilegia o aumento de carros pelo conceito de individualização.
f)        O desmatamento e as queimadas de florestas que afetam reservatórios naturais de captação de carbono.
g)      As plantações e reflorestamentos de eucaliptos e pinus que esgotam a disponibilidade de água e destroem a fauna.
h)      Aglomeramentos urbanos imensos em base a concreto, sem arborização.

Estas causam têm a ver com um modelo de produção e de consumo moldado a partir dos princípios do capitalismo. A este “modelo” corresponde uma divisão internacional de trabalho e lucro que determina quem tem o ônus da exploração da força de trabalho e dos recursos naturais e quem usufrui dos frutos deste trabalho e acumula bens e capital. Este sistema é amparado por políticas governamentais ( não só de países ricos e industrializados) bancos, organizações internacionais e órgãos multilaterais(banco mundial, FMI,OMC etc.), ou seja existe um consenso ideológico- Hegemonia construída a favor desse sistema mundial, não por acaso que as propostas apresentadas obedecem à mesma lógica do “modelo”.
É necessária uma atitude por parte dos lutadores (as) do povo e suas organizações sociais; Mov. Partidos e ONGs.

Josiano Macêdo de Lima
Médico da Reforma Agrária Formado em Cuba
Especialista
em Médicina de Família e Comunidade

Membro da Coordenação Nacional da AMN-MF

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

TÍTULO: SAÚDE NO CAMPO E DO CAMPO


A dinâmica do capitalismo do início do século xx, baseada no modelo econômico agro-exportador, desempenhou importante papel como ideia-força para construção social e política do Estado brasileiro. Historicamente, essa situação tem levado a população camponesa a lutar por políticas públicas que contribuam de forma legítima para reafirmar o campo, como espaço de produção de existência humana digna para essa população.
A imagem do Brasil como um grande hospital, feita pelo médico Miguel Pereira em 1916, tornou-se emblemática frente à situação sanitária da população nesse período. Várias endemias e epidemias assolavam o país, tais como malária, varíola, peste, tuberculose e febre amarela. A expectativa de vida de um brasileiro era em média de 30 anos. Há relatos de que esse quadro afetava vários setores do comércio exterior. Os navios estrangeiros evitavam atracar nos portos de Santos e Rio de Janeiro.
Após a Primeira Guerra mundial, o debate nacionalista intensificou-se. Em 1912, Oswlado Cruz designou Penna e Arthur Neiva para estudarem as condições sanitárias e enfretarem os problemas de saúde existentes no norte da Bahia, sudeste de Pernambucano, sul do Piauí e nodeste de Goiás. Durante sete meses esses dois sanitaristas identificaram e registraram não somente os aspectos das doenças, mas principalmente as condições sociais, econômicas e culturais da vida das populações locais. Em 1913 Penna, por conta própria, percorre os estados do nordeste e centro-oeste. No ano seguinte o relatório de viagem dessas expedições foi publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, trazendo para a opinião pública a realidade da saúde no interior do país.
Em maio de 1918, foi criado o Serviço de Profilaxia Rural pelo Presidente Wesceslau Brás, que nomeou Penna para dirigí-lo. Foram instalados os dez primeiros postos sanitários em áreas rurais do distrito Federal e realizadas várias conferências em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A liga pró-saneamento do Brasil editou o periódico saúde – Mensário de higiene, Assuntos Sociais e Economia. O editorial do ùltimo número afirmava que a agremiação tinha alcançado os objetivos coma criação do Departamento Nacional de hegiene e Saúde Pública (DNPS), em 1920, dirigido até 1926 por Carlos Chagas.
Esse período correspondente à primeira república, ficou conhecido como a Era do saneamento e da consciência das elites em relação à saúde da população. Houve o reconhecimento de que o Estado Nacional deveria assumir a responsabilidade pelas questões relativas à saúde. Estavam dadas as condições para criação de um sistema nacional de saúde, ainda que incipiente, caracterizado pela verticalização das ações e centralização no governo federal.
Durante a Segunda Guerra, dois fatores contribuiram para o aumento do fluxo migratório – principalmente de nordestinos – para a Amazônia; o aumento da importância estratégica da borracha e demais recursos naturais, e a seca de 1942, após o Estado novo, com a implantação do Serviço Especial de Saúde Pública(SESP) na Amazônia, cresce consideravelmente a influência norte-americana no modelo brasileiro de assistência `saúde. Em 1948, seguindo esse modelo,foi prestada assistência médica no combate à malária empregando o DDT nas diversas regiões, conforme interesses econômicos imperantes na época. No período seguinte, houve maior valorização das intervenções de caráter técnico, e devido à disponibilidade de inseticidas de ação residual, os serviços de saúde pública conseguiram reduzir a incid~encia de malária e outras doenças vetoriais. E entre 1949 e 1951, a disponibilidade de antibiótico também permitiu uma queda acentuada da prevalência da tuberculose.
Paralelamente, os ruralistas organizaram a I Conferência Rural, e nesse contexto o Estado cria o Serviço Social Rural vinculdo ao Ministério da Agricultura ( lei 2.613\1956). Essa é considerada a primeira iniciativa estatal de política voltada para o campo. A lei previa a prestação de serviços sociais, o estímulo à criação de cooperativas, e a realização de pesquisas para o desenvolvimento rural (IENO), 1994.
A década de 60, caracterizada pela efervescência social e política no campo, foi palco da expansão das Ligas camponesas (MEDEIROS, 1989), que em 1963 já se constituíam como movimento plítico de caráter nacional, priorizando a luta pela Reforma Agrária e pressionando o Estado para incorporar os trabalhadores do campo ao sistema previdenciário, o que ocorreu por meio do Estatuto do trabalhador rural, estava criado o benifício da legislação trabalhista para os trabalhadores do campo, nesse mesmo período foi criado a CONTAG com a presença do 500 delegados da maioria das unidades federadas.
Com o golpe militar de 1964, as organizações dos trabalhadores e suas reivindicações foram reprimidas. Ao mesmo tempo em que se amplia a legislação trabalhista e regulamenta-se a questão fundiária com o Estatuto da terra (1964), desmobiliza-se coercitivamente os sindicatos, que foram transformados em órgãos assistencialistas cumpridores de função supletiva aos Estado. Pactos sindicais foram proibidos pela legislação (SOARES, 1985).
Em 1967, o governo federal criou o Fundo de Assistencia e previdência Rural- FUNRURAL – autarquia ligada ao ministério da prvidência Social, que só em 1971 começou a funcionar, executado pelo PRORURAL. Em sua regulamentação proibiu-se a assistencia direta fomentando assim a terceirização do serviço. Tem início assim um reforço do processo de capitalização privada do setor saúde, via política de financiamento semelhante à adotada para a prestação de serviços médicos para os trabalhadores urbanos.
No final da década de 70, surgiram as comunidades eclesiais de base, as oposições sindicais, e os movimentos grevistas no campo e na cidade. Segundo Eder Sader(1988), o que caracterizou os movimentos nesse período foi a busca de autonomia, principalmente frente ao Estado, já na década de 80 o Estado procura uma saída para a cobertura dos crescentes gastos coma assistencia à população do campo, tendo em vista que o FUNRURAL já havia sido destituido no fim dos anos 70, dinate desse fato começa a se discutir nova lei para previdencia dos trabalhadores do campo, debates intensificados no IV Comgresso da CONTAG, ocorrido em Brasília, no início da"Nova República."
Nesse período surgem, no cenário dos movimentos dos trabalhadores do campo, divergências políticas internas, tanto no que se refere às relações com o governo, quanto nas estratégias de enfrentamento dos conflitos de terra. Estes conflitos foram acentuados pela introdução do modelo empresarial de gerenciamento de médias e grandes propriedades rurais, organizados pela união democrata Ruralista- UDR, a convocação da Assembleia constutuinte abriu novas posições frente às políticas públicas, e , particularmente à política de saúde. Nesse contexto sistematizaram-se as reividicações dos trabalhadores do campo em relação à previdencia social e à saúde. Fato muito importante para democracia brasileira e para a luta dos trabalhadores, incluindo o debate das políticas do setor saúde com a proposta concreta da regularização de um sistema Universal.
Na década de 90, intensificaram-se as ações no campo, com a comissão pastoral da terra( CPT) e as ações do movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST) surgido na região sul em 1984, e no final dseta década e o início do século XXI, são marcados por intensa movimenteção no campo liderada por setores organizados que lutam não só pelo acesso à terra, mas pela superação da histórica desigualdade de acesso aos direitos sociais.

A Lei Nº 8.080\90 dispõe que
" a saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviçços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do país"

A 11ª Conferência Nacional de Saúde (CNS) apontou como desafios o de garantir à população do campo condições de acesso aos sistema de saúde, e o de assegurar um atendimento em todo sistema, com qualidade e humanização. Para que isso se concretize torna-se necessário investir em educação permanente de profissionais, de modo a permitir a compreensão sobre as especificidades de cada um dos grupos populacionais que compões a população do campo brasileiro, me parece que devemos impulsionar este direito consquistado com a luta dos trabalhadores; o acesso aos sistema de saúde como garantia constitucional à população do campo, por meio do sistema único de saúde, reafirma-se nessa formulação de política como expressão de uma pacto nacional.

Josiano Macêdo de Lima
Médico da Reforma Agrária Formado em Cuba
Especialista em Médicina de Família e Comunidade
Membro da Coordenação Nacional da AMN-MF
Assessoria Técnica do Projeto Hospital da Mulher-CE
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terça-feira, 5 de abril de 2011

A ideologia do curso de Medicina


Sabemos que para se ter no SUS um profissional com um perfil que vise seus princípios é necessário que se inicie desde a graduação, o debate nas universidades envolvendo estudantes e professores é de fundamental importância para a futura práxis no sistema de saúde, ora mesmo com o discurso e a prática do Ministério da Saúde-MS, dos Municípios, e o consenso de dirigentes do ensino de medicina sobre necessidades de mudança, assim como redes de apoio de porte da ABRASCO, ou Rede Unida e mesmo assim as modificações são mais lentas do que o desejado.
Como pano de fundo para justificar essa lentidão, seria a questão da ideologia na medicina um determinante?; partindo do princípio de que a ideologia se não é a única representa uma causalidade muito importante.
Segundo Marilena Chaui: Ideologia não é sinônimo de subjetividade oposto a objetividade(...) não é um pré-conceito nem pré-noção, mas um "fato" Social, justamente por que é produzida pelas relações sociais, (...) possui razão muito determinada para seguir e se conservar (...) é uma produção de ideias por formas históricas determinadas nas relações sociais.
Segundo a concepção marxista de ideologia explica que a consciência está indissoluvelmente ligada as condições materiais de existência e que as ideias nascem, em última instância das atividades materiais, para relacionar o tema ideologia com a prática médica e com a resistência da mesma as mudanças, ainda tomando as ideias de Chaui, a partir de Marx e Hegels. Ela afirma que ideologia(entenda-se como dominante, hegemônica) é possível em função da alienação.
(...) Enquanto não houver um conhecimento da história real, enquanto a teoria não mostrar a prática imediata dos Homens e Mulheres, enquanto a experiência com a vida for mantida sem crítica e sem pensamento, a ideologia dominante se manterá. Ora, é justamente o que parece que ocorre com a categoria médica hegemonicamente, ela conhece a história da prática de sua profissão- a não ser para alguns- como mera sucessão de datas, personagens e investimentos. Marx e Hegels dizem que as ideias da classe dominante são em cada época as ideias dominantes(...) e aos trabalhadores é dada a alienação.
No início desta história no século 19 (..) o capitalismo já era uma forma hegemônica da organização da produção no mundo desenvolvido da época- europeu. Este capitalismo funcionava com uma superexploração da força de trabalho. Nesse contexto, a teoria prevalente da origem das doenças ainda era algo semelhante à miasmática, que eludia as questões sociais. Nessas condições, a contra-hegemonia gesta movimentos de transformação social, de caráter socialista. No seio desses moviemntos sociais é que os médicos (as) desenvolvem um novo conceito do processo saúde -doença. Esse moviemnto, chamado de medicina social, acompanha as tentativas de transformação social entre 1830 e 1870, tornando-se a explicação hegemônica para ciência médica da época.
Em 1848, Virchow – considerado o pai da medicina social – afirmava que as doenças eram causadas pelas más condições de vida e, junto com Neumann, propôem mudanças nas leis prussianas, objetivando superar a exploração da força de trabalho e garantir melhores condições de sua reprodução, colocando no Estado a obrigação de suprir estas necessidades.
Entre 1870 e 1900, com o desenvolvimento de diversos campos do conhecimento, aparetemente díspares, como patologia, histologia, química, fisiologia e principalmente, microbiologia, eclode uma verdadeira revolução no conhecimento médico. A partir daí, seja por interesse do capital e\ou do complexo médico industrial, ou porque o conhecimento na área inicia sua fragmentação de fato, ou porque as tentativas de transformação social fossem derrotadas, ou por todos esses motivos, perde a força, na Europa, o entendimento da saúde como uma questão determinada socialmente. Behring em 1893, segundo Rosen, sintetiza a ruptura com o movimento de medicina social, dizendo que, graças à descoberta das bactérias, a medicina não precisaria mais perder tempo com os problemas sociais, a partir desse dicurso à teoria do germes de pauster, a unicausalidade fica assentada. A hegemonia definitivamente, não gostava das pesquisas e investigações da medicina social, que apontavam invariavelmente para mudanças sociais, quer por parte dos capitalistas ou por parte do Estado que os representava. Esta forma parece ser o exemplo típico de como a hegemonia instala ideologiacamente um jeito de pensar (não se pensa mais na questão da sociedade). Na Europa, o pensamento bacteriano convive com o da medicina social em declínio, mas nos EUA por condições particulares quer da formação social, quer do modelo médico preexistente, terreno da unicausalidade rapidamente se torna hegemônico. A medicina abandona definitivamente a possibilidade de ser também uma arte, ela sempre tentou se valorizar como ciência exata, portanto o biólogico era o único pensamento aceitável enquanto pudesse ser convertido em dado matemático.

O modelo Norte-americano
Em 1910, Flexner, professor da John Hopkins university, onde vai investigar as Universidades Norte-americana com intuito de propor mudanças, e assim o faz destruindo o conceito das Universidades que tinha Homeopataia como disciplina.. Cutolo, em sua tese sobre educação médica, dissera profundamente o conteúdo desse relatório:
(...) A ênfase do ensino deve ser dividida entre básico (dentro do laborário) e profissionalizante (dentro dos hospitais) (...) denuncia as chamadas seitas médicas como homeopatia (...) discrimina negros e mulheres (...) hipervaloriza o ensino da anatomia (...) não há menção ao ensino de saúde mental, saúde pública ou ciências sociais. A base diagnóstica deverá ser física ou biólogico (...), e o melhor ensino é por especialidades. Sua concepção de ciência é manifestamente positivista.
O chamado modelo Flexneriano- e chamar dessa forma é mais um mecanismo ideológico para alienar- poderia ser chamada de modelo de medicina positivita ou ou modelo unicausal, este modelo rapidamente torna-se hegemônico nos EUA, possibilitando o desenvolvimento das bases para o capitalismo auferir lucros com a doença- o chamado complexo médico industrial. Em poucos anos, expande-se para as Américas do Norte e Central, mas encontra dificuldades de hegemonia na América Latina.
No Brasil com a luta do movimento sanitário e da 8º conferência de saúde e a formulação legal da Constituição com as leis 8080 e 8142, foi constuído contra-hegemonia na tentativa de pautar uma outra proposta de sistema de saúde, onde deu origem ao SUS com seus princípios de; equidade, integralidade e universalidade, logo ainda nos anos 90 se propôe a PSF como estrattégia de reestrurar o SUS, mas os apratos ideólogicos tenta demostrar sempre que o sistema público é ineficaz, que é só para pobres, hoje deveríamos chamar de Estratégia em saúde da Família-ESF, e não Programa de saúde da Família-PSF, os investimentos é considerado pouco o chamado piso para atenção básica-PAB, percebemos na prática que faltam profissionais capacitados para atuar dentro dos princípios do SUS, assim como vivenciálos em toda sua plenitude, pois bem aí se coloca a contradição em evidência. Os municípios precisam de um profissional que as faculdades de medicina, em sua grande maioria, não estão formando, e não querem um especialista, nem trabalho no hospital.
O que pode nos parecer estranho na verdade tem uma razoável explicação. O capitalismo internacional, no interesse de garantir o pagamento de dívidas externas dos países aos bancos, passa a se interessar por colaborar com os países que queiram investir em atenção básica. O entendimento é que esta atende melhor, com menor custo. Isto permite que alguns das diretrizes do SUS tenham financiamento internacional. Este fato, associado à luta do movimento sanitário, começa a criar uma outra hegemonia na área da saúde.

Referência do artigo: Marco Aurélia da Roz

Josiano Macêdo de Lima
Médico da Reforma Agrária Formado em Cuba
Especialista em Médicina de Família e Comunidade
Membro da Coordenação Nacional da AMN-MF
Assessoria Técnica do Projeto Hospital da Mulher-CE
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