“Não precisamos saber apenas que doença a pessoa tem,
mas que pessoa tem essa doença”. (Oliver Sacks)
Como definir a Medicina de Família e Comunidade?
Considerando a organização ainda hegemônica, tanto dos sistemas de saúde quanto da superespecialização na área médica – ambas centradas na doença e com base hospitalocêntrica - essa tarefa não é fácil. Algumas explicações corriqueiras centradas no senso comum são: “o médico de família e comunidade é aquele clínico geral antigo que ia na casa das pessoas” ou “o médico de família e comunidade é aquele que não se especializou em nada” ou ainda “é uma nova especialidade no Brasil”. Essas explicações, no entanto, são cercadas de ambigüidades e incorreções que temos procurado retificar.
O século passado foi marcado pelo avanço da ciência e crescimento de áreas subespecializadas e de especialistas focais no campo da prática médica. Porém, as análises sobre a crise da medicina e dos sistemas de saúde evidenciam que este crescimento exponencial da superespecialização focal, não trouxe os benefícios esperados, apontando para a necessidade de redirecionar este modelo. A histórica Conferência de Alma Ata realizada pela OMS em 1978 , simboliza o início de tal processo. A conferência proclamou a Atenção Primária à Saúde – APS como estratégica para se atingir a eqüidade e a universalidade no âmbito dos sistemas de saúde. A APS e sua conceituação, ainda que suscitem discussão, trazem consigo quatro grandes princípios: primeiro contato: longitudinalidade, integralidade e coordenação.
A medicina de família e comunidade – MFC – é uma especialidade médica com foco privilegiado na APS e, por isso, é considerada especialidade estratégica na conformação dos sistemas de saúde. Cabe à MFC, partindo de um primeiro contato, cuidar de forma longitudinal, integral e coordenada, da saúde de uma pessoa, considerando seu contexto
familiar e comunitário. Portanto, a medicina de família e comunidade é um componente primordial da atenção primária à saúde
O médico de família e comunidade encaminha o paciente quando necessário aos centros de referência do sistema cabendo a ele, no entanto, a coordenação da atenção prestada pelos outros níveis. Diversos estudos asseguram que o manejo adequado de 50 diagnósticos resolve a maioria dos problemas de saúde apresentados pela população de uma determinada região. Embora freqüentes esses diagnósticos nem sempre são de fácil manejo e exigem muitas vezes alto grau de complexidade para serem solucionados, ainda que com baixa densidade tecnológica. Mas, sem os outros níveis do sistema funcionando de forma adequada, a medicina de família e comunidade não se sustenta e vice-versa. O canadense Mc. Whinney, considerado um dos maiores estudiosos da medicina de família definiu quatro competências próprias dessa especialidade: 1) solução de problemas não diferenciados; 2) competências preventivas; 3) competências terapêuticas (de problemas freqüentes de saúde); 4) competência de gestão de recursos.
Países como o Brasil, que não têm ainda uma atenção primária bem organizada, acabam desperdiçando preciosos recursos o que inevitavelmente leva à iniqüidade e à falência do sistema. Por isto muitos países desenvolvidos vêm investindo cada vez mais na Atenção Primária à Saúde. Países como Portugal, Canadá, Inglaterra, Cuba e Holanda consideram e adotam o especialista em medicina de família e comunidade (com diferentes denominações) como o profissional de primeiro contato, com excelentes resultados. Na Inglaterra, 51% de todos os médicos do país são Clínicos Gerais (“General Practitioners”), no Canadá, representam 55%, em Cuba, cerca de 65% e na Holanda eles já somam 33%. No Brasil, apesar de existir desde 1976 e ter sido uma das primeiras especialidades oficializadas pela Comissão Nacional de Residência Médica já em 1981 e pelo Conselho Federal de Medicina em 1986 (com o nome de Medicina Geral Comunitária, mudando para o atual em 2001), ela ficou muito tempo em posição marginal, só ganhando maior visibilidade após a expansão do Programa Saúde da Família.
A Medicina de Família e Comunidade também tem contribuído para a reestruturação científica da própria medicina adquirindo papel estratégico na constituição dos novos paradigmas na área da saúde, e, conseqüentemente, nos campos da formação de recursos humanos e da pesquisa. Isto porque, seus princípios e práticas são centrados na pessoa (e não na doença), na relação médico-paciente, na interlocução com o indivíduo, sua família e a comunidade em que está inserido, na prática orientada pelo entendimento de que o processo saúde-adoecimento é um fenômeno complexo, relacionado à interação de fatores de ordem biológica, psicológica e sócio-ambiental.
A medicina de família e comunidade, portanto não é uma novidade no Brasil ou no mundo. Também não significa o simples retorno do “médico de família” antigo, desprovido de uma tecnologia específica ou mesmo dos avanços modernos da ciência.
Construir novos paradigmas como: interdisciplinaridade, transdisciplnaridade e multiprossionalidade são conceitos que da prática um trabalho em equipe, ou seja, as necessidades que os profissionais da Estratégia em Saúde da Família trabalhem juntos para construir suas ações de atenção e cuidados, na prática sofreram dificuldades, entendo que vários fatores: Falta de recursos financeiros para a funcionalidade da equipe com qualidade, falta compromisso em muitos gestores com o objetivo da ESF, o perfil dos profissionais, que por serem formados com outra concepção de saúde não elaboram e não agem em prol da ESF, assim como o sistema capitalista que impõe seu modo de ser as pessoas.
Nesse sentido temos que tomar uma posição frente a esta situação, na qual encontramos em todo nosso Brasil, como desconstruir tantos mitos e vícios dentro de uma sociedade que quem manda são os meios de comunicação capitalista, que na verdade são da elite brasileira submissa ao capital¿, cabe a nós Médicos e Médicas comprometidos com uma saúde pública de qualidade debater e juntos com a sociedade buscarmos ações concretas as mudanças.
Médico da Reforma Agrária Formado
Especialista
Membro da Coordenação Nacional da AMN-MF
Equipe 2 do Centro em Saúde da Família: Lêda Crato; Aracatiaçu-Sobral
hhtp://ummundomelhorpossvel.blogspot.com/