terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

As causas do aumento de preços e da crise alimentar no mundo

Egidio Brunet e João Pedro Stedile
militante do MST e da Via Campesina
Nas ultimas semanas tem circulado diversos artigos e comentários sobre a crise do aumento dos preços de alimentos. A maioria das análises são boas. Embora alguns fiquem presos a visão economicista de oferta e demanda. Ou de algum problema de seca ou enchente de algum país, que de fato não são a causa do aumento dos preços dos alimentos.
Dentro do MST e da via campesina temos produzido boas analises, e nunca é demais reforçá-las. Por isso estamos compartilhando com vocês, a nossa opinião, como uma especie de resumo sobre as causas dos aumentos de preços dos alimentos e da crise alimentar que afeta a milhões de seres humanos, além do um bilhão de famintos que já passam fome todos os dias, segundo a FAO.
1- O controle oligopólico que algumas poucas empresas tem do comércio agrícola mundial, dos principais produtos, como: soja, milho, arroz, trigo, o leite e as carnes. E elas impõem um preço, independente do custo real de produção.
2- A especulação que grandes investidores fazem nas bolsas de mercadorias agrícolas. E transformaram os alimentos em meros papeis de negócios. Comenta-se nos jornais que já estão vendidas nas bolsas as próximas sete safras de soja do mundo. Elas já têm dono, como títulos de vendas.
3- A especulação financeira: muitos bancos investem seus capitais voláteis em mercadorias agrícolas, para se proteger da crise geral.
4- A produção agrícola de agrocombustíveis, que têm seus preços baseados no petróleo, acaba influenciando a taxa media de lucro na agricultura para cima. E assim, por causa do preço do etanol elevado, sobem todos os produtos agrícolas.
5- O elevado custo de transformar milhões de toneladas de cereais em proteína animal. Ou seja, as elites demandam cada vez mais carnes, e com isso parte da produção de vegetais, que poderiam ser consumidas pela população vão para os animais e acabam influenciando o aumento de preço das carnes.
6- As privatizações dos serviços públicos para agricultura, entregando sob controle das empresas transnacionais. E com isso aumentam os custos no preço final.
7- As legislações ambientais de sanidade e certificações de patentes foram organizadas no período dos governos neoliberais para favorecer o controle oligopólio de algumas empresas sobre a maioria dos produtos, que exigem transformação industrial. E esse poder, eles impõem seus preços.
8- A regra geral imposta pela OMC (Organização mundial do comercio) a partir de 1994, que transformou os alimentos em meras mercadorias, que devem ser regularizadas apenas pelo mercado. E como o mercado é controlado pelas grandes empresas transnacionais, isso tem efeito direto no preço.
9- A introdução da propriedade privada das sementes transgênicas, impôs uma nova matriz tecnológica com custos de produção maiores e em beneficio das mesmas empresas que controlam o comercio controlam as sementes e os insumos agrícolas.
10. Há uma corrida dos capitalistas em geral e das grandes empresas, rumo ao hemisfério sul, para se apoderarem dos recursos naturais: terras, água, lagos, reservas de madeira, etc. e com isso vão expulsando as populações nativas e os camponeses em geral, e impondo a regra geral do capital sobre os alimentos.
11- Nas últimas duas décadas com o processo de internacionalização do capital e das empresas capitalistas, os preços dos alimentos se internacionalizaram. Isso determina que os parâmetros de produção e dos preços, não são mais o custo real de produção de alimentos em cada país, mas se estabelece um preço ,médio, mundial, controlado pelas empresas, e que exclui completamente outras formas de produção, locais, camponesas, etc.
Como se vê, a luta pela soberania alimentar que os movimentos da via campesina em todo mundo adotaram como prioridade é mais do que correta, é necessária e urgente. A soberania alimentar é a política de que cada povo, em sua região, município, e país, desenvolva condições para produzir os alimentos que precisa para sobreviver. E só exporte o excedente, e só importe o que vai alem de sua cesta básica de acordo com seus hábitos alimentares.
Alem disso, todos os nutricionistas advertem que nossa dieta alimentar tem que ser a partir dos alimentos produzidos nos biomas aonde vivemos. Isso é que garante energia saudável para reprodução de todos os seres vivos, em seu próprio habitat. As empresas transnacionais estão transformando o mundo, num único e grande supermercado, a base de soja e milho.
Esperamos que as contradições que o movimento do capital, nos apresenta a cada dia, nos ajude a conscientizar nossa base e a sociedade em geral, para as mudanças necessárias, para um novo modelo de produção agrícola, no Brasil e no Mundo.
Eta tarefinha boa!

Abraços

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